domingo, 17 de janeiro de 2016

Objectivo: lucro



O comandante aproveitou o facto de o imediato estar a fazer quarto ao leme e de uma forma que lhe era peculiar, sem dar azo a confianças ou à utilização de reforços positivos, que negativos não entram na marinha mercante, jubilou com a leitura dos instrumentos de bordo cuja luz azulada se reflectia nas suas faces na ponte do cargueiro de calado respeitável e disse conseguimos ao que o imediato, satisfeito pelo reconhecimento, mas impedido de dizer aquele comum eu bem lhe dizia, limitou-se a anuir com um sim senhor comandante.
A pressão começara com o manifesto de carga e com o armador que perderia oceanos de dinheiro se houvesse atrasos. O tempo poderia incomodar, era tempo de alguma ondulação, e sabendo que o mar é cão, o comandante ouvia preocupado o discurso. Já rasgara oceanos e mares e tempestades e ventos e nunca tinha perdido nem estilo, nem navegação. Era pessoa profissionalmente bem considerada, calada e pouco efusiva, mas de carácter. Honesto, tendo dos seus subordinados ganho consideração e respeito. Ali não se tratava de divisas, platinas ou de posto; a sua reputação na companhia precedia‑o e por isso era procurado para serviços mais arriscados e exigentes. Faria o seu melhor.
Conseguimos, repetia o comandante para si mesmo, já recolhido ao seu camarote. Estava a aproximar‑se do seu destino, onde fundearia à espera do piloto que atracaria no local determinado por quem decide e iria finalmente descontrair um pouco, era o porto onde uma mulher o esperava. Nela podia agora pensar, enquanto ao longe se avistavam com cada vez maior nitidez as luzes amarelas da cidade cujo porto de mar os aguardava.
Um estertor quase imperceptível seguido de um silêncio, não podia significar nada de muito bom, pelo que, estremunhado esperava um pouco para ordenar as ideias, quando um leve bater de porta confirmava os seus receios: algo estava a acontecer.
Perdemos as máquinas, foi o que ouviu, enquanto se enfiava à pressa numas calças. Gerir uma crise em trajes menores decerto que não ajudaria, e esta, avaliou de imediato, não podia ser desconsiderada. Perder as máquinas, sem ter fundeado, e com o cabrestante a não poder ser utilizado era um convite a um encalhe na praia, assim se conhecia esta parte da costa: pelo aço que dobrou de vigorosas naves.
Pouco interessava saber o que aconteceu, e se era importante a consideração do primeiro maquinista morrer de amores pela praticante de maquinista, mulheres a bordo é coisa que nem devia ser permitida, dissera o comandante quando esta se apresentou, mas sim o que era possível fazer-se naquele momento.
A comunicação para a casa das máquinas confirmou o pior cenário: era impossível reparar de imediato, tendo ficado o navio sem propulsão e muito limitado em termos de reserva de energia eléctrica (isto derivado a um problema crónico, desconsiderado quando há dias zarparam do porto de origem).
As ondas e o vento levavam a embarcação ao sabor da mãe, a natureza, e não tardou que encalhado na areia, ficasse à mercê da ondulação que ritmadamente batia no casco. A tentativa de impedir o encalhe fez varrer‑se das mentes atarefadas do comando a eventual necessidade de reunir todos os homens e mulheres (alguns e algumas das quais a dormir) e a vestirem os coletes, bem como a prepararem o bote salva‑vidas, que para o caso em apreço não seria utilizável, pois as ondas tratariam de os desfazer.
O saldo do acontecimento foi desastroso. O vento depressa soprou mais forte e as ondas mais altas se tornaram, parecendo querer engolir o navio de uma assentada. Ainda não tinham pedido socorro, mas ele já vinha pelo seu pé quando os radares detectaram aquela massa metálica à deriva em direcção à praia. Não obstante a vontade de os salvar, estavam impedidos de voar e a distância a terra e a agitação do mar pouco ou nada permitiam. Durante horas, com a pouca luz disponível, viram o navio partir‑se, algumas pessoas perder‑se no mar (engolidas por este em pouco tempo) e a carga esbanjar‑se pela praia.
Com o sol a nascer e o vento já sossegado e o mar cansado, não se vislumbrava vivalma na embarcação adornada a estibordo partida em dois, só sobejando a cada onda que lambia a praia um objecto que o mar rejeitava, ora um pedaço da carga tão valiosa, ora um colete salva‑vidas solto, amarrado a nada...
Nunca se tendo sabido de quem, a cidade ganhou uma viúva.

José Cândido
17-01-2016
  




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