segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A casa e a geografia

A casa reflecte e interage com o meio em que se insere. Esta relação, contudo, está hoje menos presente, pois a evolução da ciência e da tecnologia permitiu a adopção de novas técnicas e materiais de construção, a que acresce a importação de novos modelos arquitectónicos, fruto do incremento dos relacionamentos inter-culturais, proporcionado pelos novos meios de telecomunicações e pelo turismo.

Tomando como exemplo Portugal, a relação da casa com o meio é bem visível na arquitectura tradicional até à adopção do betão como matéria-prima, cerca de meados do século XX. Nas regiões do norte e centro e também na maior parte do Alentejo, marcadamente graníticas e xistentas, predominavam as habitações em que o granito e o xisto eram os principais materiais de construção. Já nas regiões centro litoral e litoral algarvio, predominantemente calcárias, era o calcário a matéria-prima principal. Nas zonas em que estas rochas eram pouco abundantes ou de fraca qualidade predominava a construção em terra amassada: adobe e taipa.

Na actualidade, a utilização destas rochas como matéria-prima diminuiu devido à intensificação do uso do betão esbatendo-se assim a relação da casa com o meio. No entanto, a geografia continua a condicionar a casa. Com efeito, se no que concerne aos materiais de construção o homem vai arranjando alternativas às rochas, o mesmo não acontece em relação a outros factores geográficos como o clima e o relevo, em que nada há a fazer senão adaptar-se.

Em Portugal podemos ver essa adaptação, no número de pisos, na cobertura e na pintura das habitações. Nas regiões do norte e do centro-norte, onde o clima é mais húmido, a nebulosidade maior e o relevo mais acidentado e de maior altitude, sobressaem as casas de dois pisos e com coberturas de maior inclinação, de maneira a reduzir a humidade e a facilitar a escorrência da chuva e da neve. Nas regiões do centro-sul e do sul, onde o clima é mais seco, a insolação maior e o relevo mais plano e de baixa altitude, predominam as habitações rebocadas, caiadas, de piso térreo e coberturas menos inclinadas, procurando, sobretudo, minimizar os impactos da elevada insolação.

Esta relação, quase simbiótica, da casa com o meio deve, pois, ser renovada, se necessário reinventada, tirando proveito do que a ciência e a técnica têm de melhor para oferecer, mas nunca posta em causa. Só uma casa em harmonia com a geografia em que se inscreve pode ser económica e ambientalmente sustentável e dar todo o conforto e qualidade de vida a quem nela habita.

Paulo Fonseca, Geógrafo, Membro fundador do GAFNA (http://www.gafna.net/)

Sem comentários:

Arquivo do blogue